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Jornal da Manhã - Jovem Pan - 27.07.2010
Déficit comercial do setor de autopeças pode aumentar 20,6% e atingir US$ 3 bilhões
Publicado em: 08/03/2010 Gerar um RSS desta página para um leitor de notícias e feeds

Diante da expectativa de novo recorde na produção nacional de veículos, a indústria brasileira de autopeças está otimista quanto ao desempenho em 2010, ano que deve ser marcado pelo maior volume de encomendas, tanto por parte das montadoras quanto das varejistas e oficinas, e pelo retorno do nível de investimentos à casa de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,8 bilhão). Mas nem tudo é motivo para comemoração no setor. As exportações seguem travadas por causa do câmbio, dos efeitos da crise econômica e da perda de competitividade dos componentes nacionais, e as importações de peças mostram avanço significativo, abocanhando parte do potencial de mercado que poderia ser explorado pela indústria nacional.

Para este ano, as fabricantes de autopeças trabalham com projeção de déficit comercial de US$ 3 bilhões (algo como R$ 5,4 bilhões), um avanço de 20,6% ante o saldo negativo de US$ 2,487 bilhões (quase R$ 4,5 bilhões) visto em 2009. E a expectativa é a de que o ritmo de retomada das importações supere o de recuperação do faturamento da indústria brasileira, numa clara indicação de que os componentes importados estão ganhando mercado frente ao produto nacional. "O mercado interno robusto está atraindo a produção excedente lá de fora", afirma Flávio Del Soldato, conselheiro do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças).

Entre empresas e entidades representativas do setor de componentes, o redesenho no mapa de origem dos produtos é observado de distintas maneiras . Para a Bosch, maior fabricante mundial de autopeças, o efeito das importações crescentes é ainda periférico e vem na esteira da sazonalidade do câmbio. No longo prazo, contudo, poderia se tornar preocupante.

Na Mangels, maior fornecedora de rodas de alumínio para montadoras no País, a avaliação é a de que em algum momento haverá constância na importação de peças, porém sem perda significativa para as fabricantes brasileiras, já que o arranjo da indústria automobilística sempre privilegiará a proximidade entre fornecedor e montadora.

Já para o Sindipeças, o crescente déficit comercial fala por si e acende a luz amarela no que tange aos importados, que representam, em números aproximados, 8% do mercado brasileiro de autopeças.

No ano passado, conforme levantamento da entidade, o faturamento do setor recuou 13,5% ante os R$ 72 bilhões registrados em 2008, na esteira da crise econômica e do forte abalo provocado na indústria automobilística mundial. No período, as importações brasileiras de autopeças cederam 27,7%, para US$ 9,123 bilhões (aproximadamente R$ 16,4 bilhões), e as exportações do setor, historicamente superavitário, caíram ainda mais, 34%, para US$ 6,636 bilhões (cerca de R$ 11,8 bilhões). Já a produção nacional de veículos recuou apenas 1,2%, para 3,18 milhões de unidades.

“O fato é que não estamos conseguindo aproveitar o crescimento da indústria automobilística”, ressalta Del Soldato. “As condições de mercado são bastante favoráveis. Resta saber se a indústria vai se firmar como plena ou se vai permitir o avanço dos importados”, acrescenta ele.

Considerando-se a previsão da Anfavea – a entidade representativa das montadoras –, que aponta para produção recorde de 3,39 milhões de veículos em 2010, o setor de autopeças trabalha extra-oficialmente com expectativa de crescimento de 5% a 7% – ainda não há estimativa oficial do Sindipeças.

Seja qual for a projeção, o setor não deverá investir muito mais em capacidade instalada para fazer frente à demanda maior. Em 2010, a indústria estima investir US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,8 bilhão), ante US$ 900 milhões (algo como R$ 1,6 bilhão) aportados no ano passado, ainda aquém da média histórica, de investimentos anuais de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 2,7 bilhões). “Só devemos voltar a esse nível em 2012”, informa Del Soldato.

Na Bosch, a expectativa é de incremento de 5% a 10% na produção em 2010, sem necessidade de aportes extraordinários em capacidade instalada. “Temos condições de atender a demanda”, afirma o vice-presidente executivo da Robert Bosch América Latina, Besaliel Botelho. Conforme o executivo, o mercado doméstico é visto com otimismo dentro da empresa, porém cautela é a palavra de ordem quando o assunto é exportação. Neste ano, os embarques da empresa deverão representar 22% ou 23% do volume comercializado pela Bosch América Latina, em linha com 2009, mas ainda distante da fatia de 45% verificada há alguns anos.

De forma geral, aportes executados nos últimos anos garantirão às companhias capacidade produtiva suficiente para atender o mercado, com exceção deste mês, o último de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido para veículos flex, o que deverá levar a produção nacional de veículos ao maior nível deste ano. “Estamos sentindo a pressão. Tivemos até de deixar de entregar alguma coisa”, afirma o presidente da Mangels, Robert Mangels.

A companhia, que pôs em marcha um plano de investimentos com vistas ao mercado automobilístico no longo prazo, está concluindo os testes em uma nova linha de pintura, que vai elevar a capacidade de produção de rodas de alumínio de 230 mil unidades ao mês para 260 mil unidades na unidade de Três Corações (MG). “A indústria automobilística continuará crescendo", diz Mangels.

A Iochpe-Maxion, maior fabricante de rodas e chassis para veículos comerciais e de vagões de carga do País, também se sente confortável em relação à capacidade de atender novas encomendas em 2010 sem aportes relevantes em linhas de produção. “Pelas projeções da Anfavea, 2010 deve ser um ano muito bom”, afirma o diretor financeiro e de relações com os investidores da companhia, Oscar Becker.

“Estamos bem tranquilos em relação à capacidade instalada”, acrescenta. Neste ano, cerca de 50% do faturamento da Iochpe-Maxion deve vir da área de caminhões e outros 25% do negócio de rodas de aço para automóveis e comerciais leves, que foi comprado no ano passado da ArvinMeritor, no Brasil e no Chile, e leva a marca Fumagalli.

A lenta retomada no nível dos investimentos, em relação à média histórica, é atribuída em parte aos efeitos da crise, que acertou em cheio a indústria automobilística e comprometeu também a produção do setor de autopeças, e à crescente concorrência com componentes importados, que chegam ao país com custo atrativo, sobretudo no caso daqueles de origem asiática.

Para o Sindipeças, o câmbio flutuante é “questão dada” e não há perspectiva de grandes mudanças nessa seara. Dessa forma, a agenda de competitividade da indústria de autopeças deve focar questões como redução do custo Brasil, infraestrutura e reforma trabalhista. “É preciso definir qual é o nosso papel: vamos fabricar (veículos) ou simplesmente montar?”, questiona Del Soldato.

Reposição

O crescimento expressivo da frota nacional circulante e novas exigências legais, como a inspeção ambiental veicular adotada em São Paulo, prometem um ano aquecido para o segmento de reposição automotiva. Para 2010, a expectativa do Grupo de Manutenção Automotiva (GMA), formado por entidades representativas do setor de autopeças, é de expansão de 9,5% nos negócios de fabricantes de autopeças voltados à reposição, varejo e oficinas, sobre os R$ 57,2 bilhões obtidos em 2009.

No ano passado, houve crescimento de 4% nos negócios dessa área e ampliou para 15%, ante 12% em 2007, a participação no faturamento da indústria de autopeças.

“Houve um crescimento significativo na frota e há também novos requisitos, o que exige que a reposição se reinvente para acompanhar o mercado nos próximos anos”, avalia o coordenador do GMA e conselheiro do Sindipeças, Antônio Carlos Bento.

Em 2008, conforme levantamento mais recente do Sindipeças, havia 27,8 milhões de veículos em circulação no País, dos quais 20 milhões com mais de cinco anos de uso. Além da frota maior, diante da crise econômica, alguns consumidores optaram por reparar o automóvel em lugar de comprar um novo, o que ajuda a explicar o maior faturamento do setor em um ano de queda na produção nacional de carros e recuo no faturamento da indústria brasileira de autopeças.

Conforme Bento, as empresas que atuam no segmento de reposição terão pela frente um segundo desafio, além dos novos requisitos legais: a entrada crescente de componentes importados, que nem sempre concorrem em condições de igualdade com as peças de origem nacional. Hoje, aproximadamente 10% do valor movimentado na reposição automotiva já correspondem a peças importadas e a tendência é de crescimento. “O setor precisa ser enxergado de um jeito diferente”, defende o executivo.

A vantagem de certos produtos asiáticos, conta Bento, reside principalmente nos custos de produção, bastante inferiores aos verificados no Brasil. Na China e na Índia, por exemplo, os gastos com mão de obra podem equivaler a um sexto do que a empresa teria de desembolsar no País.

“O preço da mão de obra lá não é referência. Mas, diante disso, deveríamos ter algum outro tipo de compensação, em termos de custo-País”, explica Antônio Carlos Bento. Em 2009, o setor de reposição automotiva empregava 934 mil pessoas no Brasil.

Fonte: Valor Econômico Enviar para um amigo CompartilharImprimir
 
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